segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O MISTÉRIO DO TEMPO

 Durante a Sessão do dia 13 de Outubro, o Irmão Hospitaleiro Lindomar Aparecido Furniel de Oliveira, apresentou a palestra abaixo, ocupando o Tempo de Instrução: 

O TEMPO

 

  Uma Abordagem Mística, Esotérica, Rosacruz , Maçônica e Espiritual




 


 O Tempo além do Relógio

 

No mundo profano, o tempo é uma linha reta, rígida e implacável — o Chronos que consome a vida humana e gera ansiedade. Contudo, nas escolas de mistérios e tradições iniciáticas, o tempo assume uma dimensão sagrada, profunda e maleável. Esta palestra busca desvelar o véu que cobre o tempo físico para revelar sua engrenagem espiritual.

 

  A Visão Mística e Esotérica Geral: O Tempo Sagrado

 

No ocultismo e no esoterismo universal, o tempo deixa de ser uma métrica externa e passa a ser uma realidade interna e cosmológica.

 

* Ouroboros (A Serpente Cíclica): O símbolo da serpente que morde a própria cauda representa o eterno retorno, a eternidade e a ideia de que o fim é apenas um novo começo. O tempo não é um vetor infinito, mas um ciclo que se autorregenera.

 

* Chronos vs. Kairós: Os gregos dividiam o tempo em duas forças. Chronos é o tempo do relógio, sequencial e quantitativo. Kairós é o tempo metafísico, qualitativo, o momento oportuno e sagrado onde o plano divino intersecta a realidade humana. É o "aqui e agora" experimentado em meditação profunda.

 

* O Eterno Agora: Para o verdadeiro místico, passado, presente e futuro coexistem simultaneamente. O tempo linear é uma ilusão dos sentidos (o véu de Maya), necessária apenas para que a mente tridimensional consiga processar experiências físicas.

 

 

 A Perspectiva Rosacruz: Evolução Cíclica e os Ritmos da Alma




 

A tradição Rosacruz aborda o tempo sob a ótica das leis cósmicas, focando na harmonia e na evolução gradual do ser através das eras.

 

* A Lei da Periodicidade: Tudo no universo opera em ritmos de fluxo e refluxo — o dia e a noite, as estações do ano, as marés. O tempo é o palco onde o macrocosmo (o universo) e o microcosmo (o homem) respiram juntos.

 

* Evolução em Espiral: Diferente do círculo fechado, os Rosacruzes enxergam o progresso da alma como uma linha espiralada. Nós passamos pelos mesmos pontos de aprendizado cósmico, mas sempre em um nível de consciência mais elevado. Isso se reflete na reencarnação e nos grandes ciclos de encarnação e repouso (período pós-morte).

 

* Ciclos Periódicos na Vida Humana: A filosofia rosacruz ensina que nossa vida é regida por ciclos de 7 anos. Cada período traz tendências planetárias e biológicas específicas que o estudante aprende a mapear para alcançar a maestria sobre o seu próprio destino.

 

 

 A Perspectiva Maçônica: O Tempo como Construtor e Ferramenta





 

*Na Maçonaria, o tempo é um elemento litúrgico, moral e filosófico essencial para o desbastar da "pedra bruta" e a construção do templo social e espiritual.

 

* A Régua de 24 Polegadas: É uma das ferramentas mais importantes do Aprendiz Maçom. Ela representa as 24 horas do dia e ensina a sábia divisão do tempo: parte dedicada à prece e ao auxílio ao próximo, parte ao trabalho e descanso, e parte ao estudo e desenvolvimento intelectual. Ensina a disciplina e o combate à ociosidade.

 

* O Tempo Ritualístico (Meio-Dia à Meia-Noite): Os trabalhos maçônicos em loja começam simbolicamente ao Meio-Dia (momento de maior força da luz solar, que clareia as mentes dos obreiros) e encerram-se à Meia-Noite (momento de recolhimento, silêncio e reflexão interior).

Esse "tempo mítico" isola os iniciados do barulho do mundo exterior.

 

* O Tempo Destruidor vs. O Tempo Eterno: Na simbologia dos estudos maçônicos, o tempo indica a finitude da carne e a transitoriedade das glórias humanas. No entanto, o Maçom trabalha para a eternidade, deixando um legado de virtude que desafia a erosão do tempo cronológico.

 

No Espiritualismo




 

* O tempo é visto como ferramenta de Deus para o nosso progresso

 

* O tempo é escola

  

*A Doutrina Espírita explica que estamos aqui para evoluir. O tempo na Terra é o tempo de provas e expiações. Cada dia é uma aula. Cada dificuldade é um exercício para desenvolver paciência, perdão, caridade e amor. Ninguém fica "preso" numa vida. O tempo passa para que a gente aprenda e possa recomeçar melhor.

 

 *O tempo é relativo para o Espírito,  para nós encarnados, 1 ano parece longo. Para o Espírito, fora do corpo físico, o tempo não tem a mesma pressa. Como disse Kardec em _O Livro dos Espíritos_, os Espíritos não contam o tempo como nós. O que importa não é a duração, é o aproveitamento. Uma vida curta bem vivida vale mais que muitas vidas perdidas na distração.

 

*O tempo é recomeço, a reencarnação mostra isso de forma clara. O tempo não acaba na morte do corpo. Ele continua. Errou? Vai ter nova chance. Faltou aprender? Vai voltar em outras oportunidades. Isso tira o desespero do "não deu tempo" e coloca no lugar a responsabilidade do "vou fazer melhor na próxima".

 

*O tempo é agora para fazer o bem, os Espíritos superiores sempre reforçam: não adie a caridade, o perdão, a reforma íntima. "Amanhã" é uma ilusão. O único tempo que você realmente tem para evoluir é o de hoje. O tempo passa mesmo quando a gente fica parado. Então é melhor usa-lo seguindo em  frente.

 

 

 

 

 Conclusão:  A Integração das Tradições

Compreender o tempo sob a ótica iniciática é libertar-se da escravidão do relógio.

 

* O Esoterismo nos dá a chave da eternidade presente.

* A Rosacruz nos ensina a dançar no ritmo dos ciclos cósmicos.

* A Maçonaria nos dá a disciplina para edificar a imortalidade através das horas diárias.

* O Espiritualismo nos diz: Não estamos correndo contra o tempo. Estamos caminhando com ele, em direção à luz.

 

Dominar o tempo não significa pará-lo, mas sim preencher cada fração de segundo com propósito, transformando a existência  em uma contínua Grande Obra.

 

[1] [https://formacao.cancaonova.com](https://formacao.cancaonova.com/diversos/ha-um-tempo-pra-cada-coisa/)

[2] [https://noesquadro.com.br](https://noesquadro.com.br/category/simbologia/page/3/)

[3] [https://www.instagram.com](https://www.instagram.com/reel/DQKwKwfD9LV/)

[4] [https://setemargens.com](https://setemargens.com/ensaio-de-dimas-almeida-5-mateus-chronos-e-kairos-messianismos-e-duvidas/)

[5] [https://www.embaixadoresdorei.org](https://www.embaixadoresdorei.org/estudos/o-que-eu-faco-com-o-tempo)

[6] [https://www.ijba.com.br](https://www.ijba.com.br/blog/feliz-2020/)

[7] [https://blog.ijep.com.br](https://blog.ijep.com.br/cronos-e-kairos-tempo-sem-vida-e-ausencia-de-alma/)

[8] [https://revistapandorabrasil.com](https://revistapandorabrasil.com/revista_pandora/kronos_kairos_69/alessandro.pdf)

[9] [https://pt.scribd.com](https://pt.scribd.com/document/145060144/REGUA-DE-VINTE-E-QUATRO-POLEGADAS-pdf)

[10] [https://www.glmmg.org.br](https://www.glmmg.org.br/noticia/equinocio-de-outono-seu-simbolismo-na-maconaria)



                            Ir.'. Lindomar Furniel 


Imagens da Internet 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

25 ANOS DO RITO BRASILEIRO NO TRIANGULO MINEIRO - SESSÃO CONJUNTA

 Dia 29 de Setembro de 2026, fazendo parte das comemorações aos 25 Anos de Fundação da Loja Maçônica Alpha e Ômega 3402, do Oriente de Uberlândia - Minas Gerais, foi realizado uma Sessão Conjunta com as Lojas do Rito Brasileiro do Triangulo Mineiro, comemorando assim os 25 Anos de chegada do Rito Brasileiro na região. 

A Loja Maçônica Alpha e Ômega, foi a primeira Loja a adotar o Rito Brasileiro e esses 25 Anos de Fundação foi motivo de dupla comemoração.  





O Soberano Grande Primaz do Supremo Conclave do Brasil, Irmão Juliano Coelho Braga esteve presente, prestigiando a Sessão. 

As Lojas Cô-Irmãs do Rito Brasileiro  participantes foram : Loja Maçônica Edson Alves ( Uberlândia ), Loja Maçônica Acadêmica Sabedoria e Justiça ( Prata ), Loja Maçônica Philantropia e Trabalho ( Araguari ), Loja Maçônica Acadêmica Caminhos de Jaques DeMolay ( Frutal ), Loja Maçônica União Uberabense ( Uberaba ), Loja Maçônica Fraternidade Sertaneja ( Uberlândia ), Loja Maçônica Fraternidade Acadêmica Vigilantes da Ordem ( Uberlândia ) além da Loja anfitriã Alpha e Ômega . 

Após os protocolos ritualísticos, a entrada das Lojas Cô-Irmãs do Rito Brasileiro com seus Estandartes e  da Comitiva do Soberano Grande Primaz Irmão Juliano Coelho Braga e Autoridades, foram entregues Diplomas e Homenagens. 

Foram homenageados : Supremo Conclave do Brasil para o Rito Brasileiro, o Soberano Grande Primaz Irmão Juliano, a 3ª. Delegacia do Supremo Conclave em Uberlândia, GOBMINAS, Irmão Belmiro Abreu Cunha representante do Eminente Grão Mestre, as Lojas do Rito Brasileiro participantes da Sessão Conjunta, CEMAP, Irmãos mais idoso e mais jovem do Rito participantes da sessão. 

Estiveram presentes na Sessão, comandada pelo Venerável Mestre Marcos Ferreira Vasconcelos, 110 Irmãos , sendo 18 do quadro e 92 Respeitáveis Visitantes  representando 20 Lojas distintas dos Orientes de Uberlândia, Uberaba, Araguari, Prata, Frutal, Várzea Paulista, Xanxerê e Rio de Janeiro. 

Abaixo fotos desse evento que marca a história da Loja Maçônica Alpha e Ômega:

 


Créditos fotográficos Ir.'. Carlos Alberto Leal 





segunda-feira, 21 de setembro de 2026

PALESTRA NA ALPHA E ÔMEGA - SETEMBRO AMARELO

 A Loja Maçônica Alpha e Ômega 3402 , completou no último dia 7 de setembro 25 Anos de sua fundação. 




Fazendo parte das comemorações, a Diretoria da Loja comandada pelo Venerável Mestre Marcos Ferreira Vasconcelos, trouxe para realizar uma importante palestra, o Irmão e Psiquiatra Leandro Nogueira de Souza, que abordou o tema : Suicídio.

Houve participação de Irmãos, Cunhadas, Sobrinhos e Convidados, que interagiram muito com o palestrante . 

Esse é mais um trabalho realizado pela Loja, de conscientização e total apoio ao Setembro Amarelo. 

Dr. Leandro Nogueira de Souza : Médico psiquiatra, professor, palestrante e fundador da LENOG Saúde. Desde 2012, dedica-se à psiquiatria com foco em avaliações de precisão e tratamento humanizado para adultos.

Com a missão de tratar pessoas, não apenas doenças, oferece um atendimento clínico individualizado, com tempo e atenção dedicados para compreender as demandas de cada paciente e encontrar as soluções mais adequadas.

lenog.com.br

cvv.org.br





Créditos fotográficos : Irmão Carlos Alberto de Almeida Leal 

ALPHA E ÔMEGA 25 ANOS !!!

  A Augusta e Respeitável Loja Simbólica Alpha e Ômega 3402, do Oriente de Uberlândia - Minas Gerais, do Rito Brasileiro,   completou no último dia 07 de Setembro 25 Anos de sua fundação.

 






Para comemorar essa data especial, a Diretoria da Loja, comandada pelo Venerável Mestre Marcos Ferreira Vasconcelos, organizou uma excelente Sessão Pública. 

A sessão realizada dia 08 de setembro,  contou com a presença de grande número de Irmãos, Autoridades Maçônicas, Cunhadas, Sobrinhos e Convidados. 

O Grão Mestre Estadual do GOBMINAS, Eminente Irmão Jorge Luiz de Paula Ribeiro, prestigiou a sessão juntamente com sua Comitiva.

O Irmão Fundador Aldo Borges de Freitas, apresentou uma retrospectiva desses 25 Anos da Oficina. 

Entrega de Títulos : 

Foram entregues Moção de Aplausos ao GOBMINAS, na pessoa do Grão Mestre Estadual Irmão Jorge Luiz de Paula Ribeiro, à FRAFEM Estadual, Fraternidade Feminina Alpha e Ômega, Cecom- Centro Comunitário, CMT- Conselho de Maçons do Triângulo Mineiro, CEMAP- Centro de Estudos Maçônicos Álvaro Palmeira e a Fundaçâo Maçônica Manoel dos Santos. 

Os Irmãos Jorge Luiz de Paula Ribeiro ( Eminente Grão Mestre Estadual ) , João Batista dos Santos, Francisco da Assunção Ferreira, Romildo Corrêa da Silva e Luiz Cesar Gomes de Faria, receberam Título de Membro Honorário da Loja.

O Irmão Luiz Luciano Garcia recebeu o Título de Benemérito da Ordem e o Irmão Domício Ferreira Neves recebeu os Títulos de Benemérito e Grande Benemérito da Ordem. 

Os Irmãos Fundadores Aldo Borges de Freitas, André Luiz Borges e José Rubens Buiatti receberam com grande reconhecimento  Moção de Aplausos. 

O primeiro Irmão iniciado ( 04/10/2003 )  na Alpha e Ômega,  Ademar Sebastião Ribeiro,  recebeu sua Moção de Aplausos.

Foram homenageados os Mestres Instalados: Aldo Borges de Freitas ( 2001 a 2003 ), André Luiz Borges ( 2015 a 2017 ), Aroldo Bolivar de Alvarenga ( 2017 a 2019 ), Anderson Cardoso Costa ( 2019 a 2021 e 2021 a 2023 ) e Domício Ferreira Neves ( 2023 a 2025 ). 

Os Irmãos que mais visitaram a Loja nos últimos 12 meses : Marco Aurélio Abrahão, Evaldo Chiang, Carlos Alberto de Almeida Leal e Julio Cesar Massuda, assim como as Lojas Cô-Irmãs Pedra Angular e Estrela Uberlandense receberam também os agradecimentos de todos os Obreiros da Loja, pelas visitas e por terem prestigiado a Loja nesse período. 

Os campeões de visitas pela Alpha e Ômega em Lojas Cô-Irmãs nos últimos 12 meses, foram os Irmãos Henrique Rosalén e o Venerável Mestre Marcos Ferreira Vasconcelos, que também foram homenageados, assim como toda a Diretoria anterior da Loja. 

Em seguida em um momento de grande emoção, os Irmãos que fizeram parte do quadro da Loja e já partiram para o Oriente Eterno, foram reverenciados por todos os presentes. Nomes como Antonio Farah, Antonio Rony Henriques, Edson Alves, Erecri Humberto de Queiroz, Eurípedes Martins da Costa, Gildo Gouveia, Hiran Soresini Filgueiras, Irineo de Paula Waismann, Juarez Antonio Dias, Klinger Porfirio Alves e Mario Lúcio Salum foram lembrados.

Em seguida,  houveram várias manifestações sobre essa data especial pelos representantes presentes e para finalizar o Sapientíssimo Irmão José Rubens Buiatti, falou em nome dos Fundadores e dos Irmãos do Quadro sobre os objetivos da criação desta Augusta Loja. 

Coube ao Irmão Orador Emerson Luiz Teixeira agradecer a todos que prestigiaram essa belíssima sessão, transmitindo a Gratidão de todos Membros da Oficina. 

No salão de festas foi oferecido um belíssimo jantar, organizado com muito carinho pela Diretoria . 

Abaixo fotos do evento : 


















quarta-feira, 9 de setembro de 2026

TRABALHO APRESENTADO EM LOJA

 No dia 01 de Setembro de 2026, o Irmão Cobridor Raphael Carvalho Cardoso  apresentou o trabalho abaixo, durante o Tempo de Instrução :


ENTRE A CRUZ E O ESQUADRO


Dos Cavaleiros Templários à condenação papal da Maçonaria

 


Uma reflexão sobre fé, poder, autoridade, segredo e liberdade de consciência

Peça para apresentação em Loja — aproximadamente 15 minutos


 

1. A pergunta que abre o trabalho

Meus Irmãos, este trabalho nasceu de uma pergunta aparentemente simples: afinal, um maçom católico é excomungado? A pergunta parece jurídica, mas, quando seguimos sua história, encontramos algo muito maior. Encontramos uma disputa secular sobre fé, autoridade, segredo, liberdade de consciência e, inevitavelmente, poder.

Excomunhão é uma pena eclesiástica grave; não significa automaticamente deixar de ser batizado nem uma sentença humana sobre a salvação eterna. Historicamente, a legislação católica chegou a prever excomunhão expressa para a filiação maçônica. O Código de 1983 já não cita a Maçonaria nominalmente. Ainda assim, a Congregação para a Doutrina da Fé declarou naquele ano que o juízo negativo permanecia: o católico filiado à Maçonaria é considerado em estado de pecado grave e não pode receber a Comunhão. O Vaticano reafirmou a incompatibilidade em 2023.

Mas por que uma fraternidade que admite a crença em um Ser Supremo tornou-se, para Roma, incompatível com a fé católica?

2. Antes da Maçonaria: uma disputa sobre quem detém a autoridade





Para compreender essa tensão, proponho recuar não a 1738, mas ao início do século XIV. Poucos anos antes da queda dos Templários, o rei Filipe IV da França e o papa Bonifácio VIII travavam um conflito aberto sobre os limites do poder temporal e espiritual.

Em 1302, Bonifácio VIII publicou a bula Unam Sanctam, uma das formulações mais fortes da supremacia pontifícia medieval. O conflito não era abstrato: envolvia tributação do clero, soberania do rei e a pergunta essencial de quem possuía autoridade final sobre a sociedade cristã. Em 1303, agentes ligados a Filipe IV participaram do episódio de Anagni contra Bonifácio. Dois anos depois, o francês Clemente V tornou-se papa.

É dentro desse cenário — e não isoladamente — que devemos olhar para os Cavaleiros Templários. A Ordem era católica, militar e religiosa, mas possuía riqueza, propriedades internacionais, privilégios e uma autonomia excepcional. Sua relação institucional passava diretamente pelo papado. Para uma monarquia em processo de centralização, uma organização transnacional, autônoma e poderosa constituía também um problema político.

A questão templária não foi apenas 'em que eles acreditavam?'. Foi também: a quem obedeciam, que poder possuíam e quem poderia julgá-los?

3. 1307: quando o desconhecido se transforma em acusação

Em 13 de outubro de 1307, Filipe IV ordenou prisões em massa dos Templários na França. As acusações eram devastadoras: negação de Cristo, desrespeito à cruz, práticas obscenas, idolatria e veneração de uma cabeça misteriosa. A tradição posterior associaria parte desse imaginário ao nome Baphomet.

Muitos depoimentos foram obtidos sob tortura e as versões apresentavam contradições. O Pergaminho de Chinon mostra ainda que representantes de Clemente V concederam absolvição e reconciliação eclesiástica aos principais dirigentes templários, inclusive Jacques de Molay, em 1308. Isso torna inadequada a narrativa simples segundo a qual a Igreja teria apenas descoberto uma ordem comprovadamente satânica e a eliminado.

Em 1312, Clemente V suprimiu a Ordem. Em 1314, Jacques de Molay foi queimado em Paris. Não precisamos transformar Filipe IV, Clemente V ou os Templários em personagens unidimensionais. Mas é difícil ignorar que doutrina, jurisdição, interesses econômicos e poder político estavam profundamente entrelaçados.

4. O segredo e a construção do inimigo

Aqui surge uma reflexão especialmente maçônica. Uma instituição iniciática preserva parte de sua experiência do olhar externo. Para quem está dentro, o segredo pode significar método, compromisso e experiência simbólica. Para quem está fora, porém, o segredo cria um vazio. E vazios de informação frequentemente são preenchidos pelo imaginário.

Com os Templários, o desconhecido foi preenchido por histórias de negação de Cristo, ídolos e práticas ocultas. Séculos depois, a Maçonaria também seria acusada popularmente de satanismo, culto a Lúcifer, Baphomet e conspirações anticristãs.

No século XIX, esse mecanismo atingiu um exemplo quase caricatural. Léo Taxil construiu uma extensa fraude antimaçônica, descrevendo uma suposta ordem secreta luciferiana, rituais demoníacos e personagens fictícios. Em 1897, ele próprio revelou publicamente que suas 'revelações' eram uma farsa. Apesar disso, elementos desse imaginário continuaram a circular.

Quando não conhecemos o que existe atrás da porta, somos tentados a colocar atrás dela aquilo que mais tememos.

5. Da memória templária à Maçonaria moderna

É necessário separar tradição de demonstração histórica. Não existe prova documental suficiente de uma continuidade institucional direta entre a Ordem do Templo medieval e a Maçonaria moderna. Mas existe, sem dúvida, uma poderosa tradição templária dentro de sistemas maçônicos posteriores.

O Templo de Salomão já oferece uma ponte simbólica evidente. Na Maçonaria, o Templo não é apenas edifício histórico: é linguagem de construção moral. Pedra bruta, ferramentas, colunas, arquitetura e aperfeiçoamento do homem transformam o ato de construir em alegoria iniciática. Os próprios Templários receberam seu nome de sua associação ao local do Templo em Jerusalém.

Em 1717, temos o marco tradicional da primeira Grande Loja em Londres; em 1723, as Constituições de Anderson. E aqui aparece uma ideia fundamental: a Loja como 'Center of Union', um centro capaz de aproximar homens que, fora dali, poderiam permanecer separados.

6. Anderson e um paradoxo de 1738

Esse conceito merece atenção. O que a Maçonaria moderna apresenta como virtude — permitir que diferenças confessionais não impeçam a fraternidade — será visto por Roma sob outra lente.




Quinze anos depois das Constituições de Anderson, Clemente XII publicou In Eminenti, em 28 de abril de 1738. Entre os motivos de preocupação estavam justamente reuniões reservadas, compromissos internos e a reunião de homens de diferentes religiões.

Aquilo que para a Maçonaria poderia ser um 'centro de união' aparecia, para a autoridade religiosa, como motivo de desconfiança.

Esse contraste talvez seja mais profundo do que uma simples divergência ritual. Ele toca uma questão de autoridade: pode existir uma fraternidade moral, supraconfessional, capaz de reunir homens sem que uma autoridade religiosa determine previamente os limites dessa união?

7. Ramsay: cavalaria, Cruzadas e uma identidade que se amplia

Nesse ambiente surge Andrew Michael Ramsay. Em sua célebre oração de 1736/1737, ele relacionou a fraternidade aos Cruzados, à Terra Santa, a Salomão e a uma tradição cavaleiresca. O próprio Scottish Rite, Southern Jurisdiction, observa que os 'Crusaders' de Ramsay acabaram, posteriormente, transformando-se na teoria de uma descendência templária.

Não devemos afirmar que Ramsay causou a bula de 1738; não existe documentação que sustente isso. Mas sua oração pertence exatamente ao momento em que a identidade maçônica ganhava novas dimensões. Podemos imaginá-la como mais um elemento num copo de tensões políticas, religiosas e sociais que já estava praticamente cheio.

8. O fio que atravessa 1302, 1307 e 1738: poder

É aqui que proponho a tese central desta peça. Não seria historicamente responsável dizer que religião e princípios eram apenas desculpas e que tudo se reduzia ao poder. As pessoas daqueles períodos realmente possuíam convicções religiosas profundas. Mas também seria ingênuo estudar esses acontecimentos ignorando a disputa pelo poder.

Em 1302, discutia-se a supremacia do espiritual sobre o temporal. Em 1307, uma Ordem autônoma ficou presa entre a Coroa e o papado. Em 1738, uma fraternidade independente, reservada e supraconfessional passou a ser formalmente condenada por Roma.

Em todos esses episódios retorna uma pergunta: quem possui autoridade para organizar os homens, estabelecer compromissos, definir os limites da consciência e determinar quais vínculos são legítimos?

Talvez a história entre a Cruz e o Esquadro seja também uma história sobre os limites da autoridade.

9. Deus, G∴A∴D∴U∴ e a acusação de irreligiosidade

Chegamos então a outra questão recorrente: a ideia de que a Maçonaria não estaria vinculada a Deus ou esconderia algum culto demoníaco. É fundamental distinguir propaganda antimaçônica da posição oficial contemporânea da Igreja.

Roma não fundamenta hoje sua proibição dizendo oficialmente que os maçons adoram Satanás. O documento de 1983 fala em princípios considerados inconciliáveis com a doutrina católica; em 2023, essa incompatibilidade foi reafirmada.

A resposta maçônica merece igual precisão. A Maçonaria regular não é uma religião e não pretende substituir uma Igreja. Não administra sacramentos nem oferece uma doutrina própria de salvação. O G∴A∴D∴U∴ não precisa ser entendido como um 'deus maçônico'. É uma designação universal do Criador que permite ao Irmão compreender o Supremo conforme sua própria fé.

Há uma diferença decisiva entre dizer 'todas as religiões são iguais' e dizer 'homens de religiões diferentes podem ser Irmãos'.

Tolerância não é necessariamente relativismo. O maçom cristão não precisa deixar Cristo do lado de fora da Loja para reconhecer a dignidade religiosa de outro Irmão.

10. A pergunta contemporânea

A posição católica permanece clara: a filiação maçônica é proibida aos fiéis porque Roma entende que há incompatibilidade de princípios. Uma análise séria precisa reconhecer isso antes de criticá-la.

Mas a perspectiva maçônica também pode formular uma pergunta legítima. Em 1738, a reunião de homens de diferentes religiões era vista como elemento de suspeita. Hoje, o diálogo entre diferentes tradições religiosas tornou-se parte importante da própria convivência pública e do diálogo promovido por instituições religiosas.

Portanto, quase três séculos depois, quais elementos da incompatibilidade são propriamente teológicos e quais ainda carregam a memória de um mundo em que religião, Estado, autoridade e liberdade de associação se organizavam de maneira profundamente diferente da atual?

11. Conclusão — Entre a Cruz e o Esquadro

Talvez o conflito entre a Cruz e o Esquadro nunca tenha sido simplesmente um conflito entre fé e ausência de fé. Ao longo da história, encontramos fé verdadeira, divergências doutrinárias reais, mas também encontramos instituições disputando autoridade, autonomia e influência sobre os homens.

Os Templários nos lembram como uma organização religiosa, autônoma e cercada de segredo pôde tornar-se alvo de acusações extraordinárias em meio a uma disputa de poder. A história da Maçonaria mostra como o mesmo desconhecimento externo alimentou, séculos depois, novas narrativas de irreligiosidade, satanismo e conspiração.

A Maçonaria, entretanto, propõe ao iniciado uma tarefa diferente: não aceitar simplesmente a narrativa mais confortável, mas trabalhar a pedra, investigar, comparar e buscar a verdade.

Se a tolerância não exige que abandonemos nossa fé, mas apenas que respeitemos a fé do outro, onde termina a incompatibilidade religiosa — e onde começa uma divergência histórica sobre consciência, autoridade, autonomia e poder?

Talvez essa pergunta não tenha uma resposta única. E talvez seja exatamente por isso que ela seja digna de ser levada ao interior de uma Loja.

Referências essenciais para aprofundamento

ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. Londres, 1723.

RAMSAY, Andrew Michael. Oration of the Chevalier Ramsay, 1736/1737.

BONIFÁCIO VIII. Unam Sanctam. 1302.

CLEMENTE XII. In Eminenti Apostolatus Specula. 1738.

BENTO XIV. Providas Romanorum Pontificum. 1751.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração sobre a Maçonaria. 26 nov. 1983.

DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Resposta sobre participação de fiéis católicos na Maçonaria. 13 nov. 2023.

SCOTTISH RITE OF FREEMASONRY, S.J., U.S.A. Freemasonry Q&A: What was Ramsay’s Oration?

QUATUOR CORONATI LODGE No. 2076. Ars Quatuor Coronatorum.

LYTTLE, Charles H. Historical Bases of Rome’s Conflict with Freemasonry. Church History, 1940.

BENNETT, John Richardson. The Origin of Freemasonry and Knights Templar. 1907.

BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. The Temple and the Lodge. (Consultar como interpretação da tese templária, não como prova de continuidade institucional.)

Documentação do processo templário e Pergaminho de Chinon.



IR.'. RAPHAEL C. CARDOSO 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

DIA DO MAÇOM

 Dia 18 de Agosto de 2026, na Augusta e Respeitável Loja Maçônica Alpha e Ômega do Oriente de Uberlândia MG, do Rito Brasileiro, o Irmão Lemuel Delfino Alves, apresentou uma belíssima palestra em comemoração ao Dia do Maçom :




20 de Agosto — Dia Nacional do Maçom

O dia 20 de agosto é tradicionalmente celebrado no Brasil como o Dia do Maçom. Mais do que uma data comemorativa, este é um momento que nos convida a refletir sobre aquilo que significa ser maçom. 

Vestir um avental, frequentar uma Loja ou possuir um grau não é, por si só, o que define um maçom. A verdadeira construção maçônica acontece na maneira como conduzimos nossa vida, tratamos nossos Irmãos, cuidamos de nossas famílias e cumprimos nossos deveres perante a sociedade.

Por isso, falar sobre o Dia do Maçom é também falar sobre responsabilidade, exemplo e legado.

Por que 20 de agosto? 

A escolha do dia 20 de agosto está ligada à história da Maçonaria brasileira e ao período da Independência do Brasil. 

Em 1822, a Maçonaria participava intensamente das discussões políticas e sociais que envolviam o futuro do país. Personagens importantes daquele período tiveram ligação com a Ordem, entre eles Joaquim Gonçalves Ledo e José Bonifácio de Andrada e Silva. 

Uma das referências históricas associadas à data é uma sessão maçônica ocorrida em agosto de 1822, na qual foram debatidos os rumos políticos do Brasil e sua separação de Portugal. 

Existe, entretanto, uma particularidade histórica importante: devido às diferenças entre o calendário utilizado nos registros maçônicos da época e o calendário civil, historiadores discutem a correspondência exata dessa sessão com o atual dia 20 de agosto.

Isso não diminui o significado da data. Pelo contrário, mostra que devemos conhecer nossa história com profundidade, distinguindo a tradição dos fatos históricos documentados. 

A Maçonaria e a construção do Brasil .

A presença de maçons em momentos importantes da história brasileira é conhecida. 

No processo de Independência, na formação política do Império e posteriormente em movimentos sociais e republicanos, encontramos homens ligados à Maçonaria participando dos acontecimentos de seu tempo.

Mas é importante fazer uma distinção. 

Não devemos afirmar simplesmente que “a Maçonaria fez a Independência do Brasil”. 

A história é muito maior e mais complexa. Podemos afirmar, porém, que maçons tiveram participação relevante nos debates e acontecimentos que contribuíram para a formação do Brasil independente. 

Essa diferença é importante porque a Maçonaria deve buscar não apenas transmitir tradições, mas também respeitar a verdade histórica.

O que significa ser maçom hoje? 

Talvez essa seja a parte mais importante desta reflexão. 

Dois séculos depois daqueles acontecimentos, qual é o papel do maçom? 

Hoje nossa batalha não acontece nos mesmos campos políticos de 1822. 

Nossa construção acontece principalmente dentro de nós mesmos. 




A Maçonaria nos apresenta a imagem da Pedra Bruta como representação de nossas imperfeições. 

E talvez o maior desafio do maçom seja justamente este: 

Não passar a vida inteira tentando corrigir o mundo enquanto esquece de desbastar a própria pedra.

Ser maçom exige coerência.

Não adianta defender fraternidade dentro do Templo e cultivar discórdia fora dele. 

Não adianta falar sobre moral e agir sem princípios. 

Não adianta buscar conhecimento maçônico e esquecer os deveres com a família. 

Não adianta receber títulos, cargos ou graus se eles não forem acompanhados de humildade e responsabilidade.

Liberdade, Igualdade e Fraternidade .




Os princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade continuam extremamente atuais. 

Liberdade, porque o homem precisa ter liberdade de consciência para buscar a verdade. 

Igualdade, porque dentro da Loja aprendemos que posição social, profissão ou condição financeira não tornam um homem superior ao outro.

Fraternidade, porque não basta chamarmos uns aos outros de Irmãos. Precisamos transformar essa palavra em comportamento. 

A fraternidade verdadeira aparece principalmente quando um Irmão precisa do outro.

O maçom fora do Templo

Talvez uma das maiores responsabilidades do maçom seja compreender que sua condição não termina quando os trabalhos da Loja são encerrados. 

Na verdade, é justamente ali que começa a parte mais difícil. 

O mundo não conhece nossos sinais, nossos rituais ou nossos trabalhos internos.

O mundo conhece nossas atitudes. 

Conhece o empresário que somos. 

O profissional que somos. 

O marido, pai, filho e amigo que somos.

Conhece a nossa palavra. 

Conhece nossa honestidade.

Conhece a maneira como tratamos quem não pode nos oferecer nada em troca. 

Por isso, cada maçom, querendo ou não, carrega consigo parte da imagem da Instituição. 

Uma reflexão para o Dia do Maçom 

No dia 20 de agosto, podemos receber felicitações pelo Dia do Maçom. 

Mas talvez a pergunta mais importante não seja: 

“Há quanto tempo sou maçom?”

A pergunta deveria ser: “Quanto a Maçonaria conseguiu transformar o homem que eu sou?” 

Porque podemos contar os anos de iniciação. 

Podemos contar nossos graus. Podemos contar os cargos que ocupamos. 

Mas nenhuma dessas coisas, isoladamente, mede nossa evolução. 

A verdadeira medida está na transformação. 

Se hoje somos mais tolerantes do que ontem. 

Se aprendemos a ouvir antes de julgar. 

Se nossa palavra passou a ter mais valor.

Se nossa família percebe em nós um homem melhor. 

Se conseguimos reconhecer nossos próprios erros.

Então nossa caminhada está produzindo frutos. 

Conclusão

Celebrar o Dia Nacional do Maçom não deve ser apenas homenagear aqueles que participaram da história.

É também assumir a responsabilidade de continuar construindo.

Nossos antecessores enfrentaram os desafios do tempo deles. 

Nós precisamos enfrentar os desafios do nosso.

E talvez a maior contribuição que cada um de nós possa oferecer à Maçonaria e à sociedade seja relativamente simples: ser um homem melhor quando sair do Templo do que era quando entrou. 

Porque os Templos podem ser construídos com pedra, madeira e aço. 

Mas o grande Templo que a Maçonaria nos ensina a construir é feito de caráter, virtude e boas obras.

Que o Supremo Arquiteto do Universo nos conceda sabedoria para reconhecer nossas imperfeições, força para corrigi-las e perseverança para continuar trabalhando na construção de nós mesmos. 

Feliz Dia Nacional do Maçom. 

20 de agosto.


Lemuel Delfino Alves 

CIM 352663