No dia 01 de Setembro de 2026, o Irmão Cobridor Raphael Carvalho Cardoso apresentou o trabalho abaixo, durante o Tempo de Instrução :
ENTRE A CRUZ E O ESQUADRO
Dos Cavaleiros Templários à condenação papal da Maçonaria
Uma reflexão sobre fé, poder, autoridade, segredo e
liberdade de consciência
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apresentação em Loja — aproximadamente 15 minutos
1. A pergunta que abre o trabalho
Meus Irmãos, este trabalho nasceu de uma
pergunta aparentemente simples: afinal, um maçom católico é excomungado? A
pergunta parece jurídica, mas, quando seguimos sua história, encontramos algo
muito maior. Encontramos uma disputa secular sobre fé, autoridade, segredo,
liberdade de consciência e, inevitavelmente, poder.
Excomunhão é uma pena eclesiástica grave;
não significa automaticamente deixar de ser batizado nem uma sentença humana
sobre a salvação eterna. Historicamente, a legislação católica chegou a prever
excomunhão expressa para a filiação maçônica. O Código de 1983 já não cita a
Maçonaria nominalmente. Ainda assim, a Congregação para a Doutrina da Fé
declarou naquele ano que o juízo negativo permanecia: o católico filiado à
Maçonaria é considerado em estado de pecado grave e não pode receber a
Comunhão. O Vaticano reafirmou a incompatibilidade em 2023.
Mas por que uma
fraternidade que admite a crença em um Ser Supremo tornou-se, para Roma,
incompatível com a fé católica?
2. Antes da Maçonaria: uma disputa sobre quem detém a
autoridade
Para compreender essa tensão, proponho
recuar não a 1738, mas ao início do século XIV. Poucos anos antes da queda dos
Templários, o rei Filipe IV da França e o papa Bonifácio VIII travavam um
conflito aberto sobre os limites do poder temporal e espiritual.
Em 1302, Bonifácio VIII publicou a bula
Unam Sanctam, uma das formulações mais fortes da supremacia pontifícia
medieval. O conflito não era abstrato: envolvia tributação do clero, soberania
do rei e a pergunta essencial de quem possuía autoridade final sobre a
sociedade cristã. Em 1303, agentes ligados a Filipe IV participaram do episódio
de Anagni contra Bonifácio. Dois anos depois, o francês Clemente V tornou-se
papa.
É dentro desse cenário — e não
isoladamente — que devemos olhar para os Cavaleiros Templários. A Ordem era
católica, militar e religiosa, mas possuía riqueza, propriedades
internacionais, privilégios e uma autonomia excepcional. Sua relação
institucional passava diretamente pelo papado. Para uma monarquia em processo
de centralização, uma organização transnacional, autônoma e poderosa constituía
também um problema político.
A questão templária não foi
apenas 'em que eles acreditavam?'. Foi também: a quem obedeciam, que poder
possuíam e quem poderia julgá-los?
3. 1307: quando o desconhecido se transforma em acusação
Em 13 de outubro de 1307, Filipe IV
ordenou prisões em massa dos Templários na França. As acusações eram
devastadoras: negação de Cristo, desrespeito à cruz, práticas obscenas,
idolatria e veneração de uma cabeça misteriosa. A tradição posterior associaria
parte desse imaginário ao nome Baphomet.
Muitos depoimentos foram obtidos sob
tortura e as versões apresentavam contradições. O Pergaminho de Chinon mostra
ainda que representantes de Clemente V concederam absolvição e reconciliação
eclesiástica aos principais dirigentes templários, inclusive Jacques de Molay,
em 1308. Isso torna inadequada a narrativa simples segundo a qual a Igreja
teria apenas descoberto uma ordem comprovadamente satânica e a eliminado.
Em 1312, Clemente V suprimiu a Ordem. Em
1314, Jacques de Molay foi queimado em Paris. Não precisamos transformar Filipe
IV, Clemente V ou os Templários em personagens unidimensionais. Mas é difícil
ignorar que doutrina, jurisdição, interesses econômicos e poder político
estavam profundamente entrelaçados.
4. O segredo e a construção do inimigo
Aqui surge uma reflexão especialmente
maçônica. Uma instituição iniciática preserva parte de sua experiência do olhar
externo. Para quem está dentro, o segredo pode significar método, compromisso e
experiência simbólica. Para quem está fora, porém, o segredo cria um vazio. E
vazios de informação frequentemente são preenchidos pelo imaginário.
Com os Templários, o desconhecido foi
preenchido por histórias de negação de Cristo, ídolos e práticas ocultas.
Séculos depois, a Maçonaria também seria acusada popularmente de satanismo,
culto a Lúcifer, Baphomet e conspirações anticristãs.
No século XIX, esse mecanismo atingiu um
exemplo quase caricatural. Léo Taxil construiu uma extensa fraude antimaçônica,
descrevendo uma suposta ordem secreta luciferiana, rituais demoníacos e
personagens fictícios. Em 1897, ele próprio revelou publicamente que suas
'revelações' eram uma farsa. Apesar disso, elementos desse imaginário
continuaram a circular.
Quando não conhecemos o que
existe atrás da porta, somos tentados a colocar atrás dela aquilo que mais
tememos.
5. Da memória templária à Maçonaria moderna
É necessário separar tradição de
demonstração histórica. Não existe prova documental suficiente de uma
continuidade institucional direta entre a Ordem do Templo medieval e a
Maçonaria moderna. Mas existe, sem dúvida, uma poderosa tradição templária
dentro de sistemas maçônicos posteriores.
O Templo de Salomão já oferece uma ponte
simbólica evidente. Na Maçonaria, o Templo não é apenas edifício histórico: é
linguagem de construção moral. Pedra bruta, ferramentas, colunas, arquitetura e
aperfeiçoamento do homem transformam o ato de construir em alegoria iniciática.
Os próprios Templários receberam seu nome de sua associação ao local do Templo
em Jerusalém.
Em 1717, temos o marco tradicional da
primeira Grande Loja em Londres; em 1723, as Constituições de Anderson. E aqui
aparece uma ideia fundamental: a Loja como 'Center of Union', um centro capaz
de aproximar homens que, fora dali, poderiam permanecer separados.
6. Anderson e um paradoxo de 1738
Esse conceito merece atenção. O que a
Maçonaria moderna apresenta como virtude — permitir que diferenças
confessionais não impeçam a fraternidade — será visto por Roma sob outra lente.
Quinze anos depois das Constituições de
Anderson, Clemente XII publicou In Eminenti, em 28 de abril de 1738. Entre os
motivos de preocupação estavam justamente reuniões reservadas, compromissos
internos e a reunião de homens de diferentes religiões.
Aquilo que para a Maçonaria
poderia ser um 'centro de união' aparecia, para a autoridade religiosa, como
motivo de desconfiança.
Esse contraste talvez seja mais profundo
do que uma simples divergência ritual. Ele toca uma questão de autoridade: pode
existir uma fraternidade moral, supraconfessional, capaz de reunir homens sem
que uma autoridade religiosa determine previamente os limites dessa união?
7. Ramsay: cavalaria, Cruzadas e uma identidade que se
amplia
Nesse ambiente surge Andrew Michael
Ramsay. Em sua célebre oração de 1736/1737, ele relacionou a fraternidade aos
Cruzados, à Terra Santa, a Salomão e a uma tradição cavaleiresca. O próprio
Scottish Rite, Southern Jurisdiction, observa que os 'Crusaders' de Ramsay
acabaram, posteriormente, transformando-se na teoria de uma descendência
templária.
Não devemos afirmar que Ramsay causou a
bula de 1738; não existe documentação que sustente isso. Mas sua oração
pertence exatamente ao momento em que a identidade maçônica ganhava novas
dimensões. Podemos imaginá-la como mais um elemento num copo de tensões
políticas, religiosas e sociais que já estava praticamente cheio.
8. O fio que atravessa 1302, 1307 e 1738: poder
É aqui que proponho a tese central desta
peça. Não seria historicamente responsável dizer que religião e princípios eram
apenas desculpas e que tudo se reduzia ao poder. As pessoas daqueles períodos
realmente possuíam convicções religiosas profundas. Mas também seria ingênuo
estudar esses acontecimentos ignorando a disputa pelo poder.
Em 1302, discutia-se a supremacia do
espiritual sobre o temporal. Em 1307, uma Ordem autônoma ficou presa entre a
Coroa e o papado. Em 1738, uma fraternidade independente, reservada e
supraconfessional passou a ser formalmente condenada por Roma.
Em todos esses episódios retorna uma
pergunta: quem possui autoridade para organizar os homens, estabelecer
compromissos, definir os limites da consciência e determinar quais vínculos são
legítimos?
Talvez a história entre a
Cruz e o Esquadro seja também uma história sobre os limites da autoridade.
9. Deus, G∴A∴D∴U∴ e a acusação de irreligiosidade
Chegamos então a outra questão
recorrente: a ideia de que a Maçonaria não estaria vinculada a Deus ou
esconderia algum culto demoníaco. É fundamental distinguir propaganda
antimaçônica da posição oficial contemporânea da Igreja.
Roma não fundamenta hoje sua proibição
dizendo oficialmente que os maçons adoram Satanás. O documento de 1983 fala em
princípios considerados inconciliáveis com a doutrina católica; em 2023, essa
incompatibilidade foi reafirmada.
A resposta maçônica merece igual
precisão. A Maçonaria regular não é uma religião e não pretende substituir uma
Igreja. Não administra sacramentos nem oferece uma doutrina própria de
salvação. O G∴A∴D∴U∴ não precisa ser entendido como um 'deus maçônico'. É uma
designação universal do Criador que permite ao Irmão compreender o Supremo
conforme sua própria fé.
Há uma diferença decisiva
entre dizer 'todas as religiões são iguais' e dizer 'homens de religiões
diferentes podem ser Irmãos'.
Tolerância não é necessariamente
relativismo. O maçom cristão não precisa deixar Cristo do lado de fora da Loja
para reconhecer a dignidade religiosa de outro Irmão.
10. A pergunta contemporânea
A posição católica permanece clara: a
filiação maçônica é proibida aos fiéis porque Roma entende que há
incompatibilidade de princípios. Uma análise séria precisa reconhecer isso
antes de criticá-la.
Mas a perspectiva maçônica também pode
formular uma pergunta legítima. Em 1738, a reunião de homens de diferentes
religiões era vista como elemento de suspeita. Hoje, o diálogo entre diferentes
tradições religiosas tornou-se parte importante da própria convivência pública
e do diálogo promovido por instituições religiosas.
Portanto, quase três séculos depois,
quais elementos da incompatibilidade são propriamente teológicos e quais ainda
carregam a memória de um mundo em que religião, Estado, autoridade e liberdade
de associação se organizavam de maneira profundamente diferente da atual?
11. Conclusão — Entre a Cruz e o Esquadro
Talvez o conflito entre a Cruz e o
Esquadro nunca tenha sido simplesmente um conflito entre fé e ausência de fé.
Ao longo da história, encontramos fé verdadeira, divergências doutrinárias
reais, mas também encontramos instituições disputando autoridade, autonomia e
influência sobre os homens.
Os Templários nos lembram como uma
organização religiosa, autônoma e cercada de segredo pôde tornar-se alvo de
acusações extraordinárias em meio a uma disputa de poder. A história da
Maçonaria mostra como o mesmo desconhecimento externo alimentou, séculos
depois, novas narrativas de irreligiosidade, satanismo e conspiração.
A Maçonaria, entretanto, propõe ao
iniciado uma tarefa diferente: não aceitar simplesmente a narrativa mais
confortável, mas trabalhar a pedra, investigar, comparar e buscar a verdade.
Se a tolerância não exige
que abandonemos nossa fé, mas apenas que respeitemos a fé do outro, onde
termina a incompatibilidade religiosa — e onde começa uma divergência histórica
sobre consciência, autoridade, autonomia e poder?
Talvez essa pergunta não tenha uma
resposta única. E talvez seja exatamente por isso que ela seja digna de ser
levada ao interior de uma Loja.
Referências essenciais para aprofundamento
ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. Londres,
1723.
RAMSAY, Andrew Michael. Oration of the Chevalier Ramsay, 1736/1737.
BONIFÁCIO VIII. Unam Sanctam. 1302.
CLEMENTE XII. In Eminenti Apostolatus Specula. 1738.
BENTO XIV. Providas Romanorum Pontificum. 1751.
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração sobre a Maçonaria. 26
nov. 1983.
DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Resposta sobre participação de
fiéis católicos na Maçonaria. 13 nov. 2023.
SCOTTISH RITE OF FREEMASONRY, S.J., U.S.A. Freemasonry Q&A: What
was Ramsay’s Oration?
QUATUOR CORONATI LODGE No. 2076. Ars Quatuor Coronatorum.
LYTTLE, Charles H. Historical Bases of Rome’s Conflict with
Freemasonry. Church History, 1940.
BENNETT, John Richardson. The Origin of Freemasonry and Knights
Templar. 1907.
BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. The Temple and the Lodge.
(Consultar como interpretação da tese templária, não como prova de continuidade
institucional.)
Documentação do processo templário e Pergaminho de Chinon.
IR.'. RAPHAEL C. CARDOSO



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